Carta aos amigos e benfeitores nº87. - Português

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Caros Amigos e Benfeitores,

Há quinhentos anos, Martinho Lutero se revoltava contra a Igreja, levando junto consigo uma terça parte da Europa - foi talvez a perda mais importante que a Igreja católica tenha sofrido durante sua história, depois do cisma do Oriente de 1054. Deste modo ele privou milhões de almas dos meios necessários à salvação, afastando-as não de uma organização religiosa entre outras, mas, nada mais nada menos, da única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual ele negou sua realidade sobrenatural e sua necessidade para a salvação. Ele desnaturalizou completamente a fé, da qual rejeitou seus dogmas fundamentais, que são o santo Sacrifício da missa, a presença real Eucarística, o sacerdócio, o poder papal, a graça e a justificação.

No fundamento de seu pensamento, que ainda é o do protestantismo em seu conjunto até hoje, encontramos o livre exame. Este princípio nega a necessidade de uma autoridade sobrenatural e infalível que possa se impor aos julgamentos particulares, e resolver os debates entre aqueles que ela tem a missão de guiar ao caminho do Céu. Este princípio claramente reivindicado simplesmente impossibilita o ato de fé sobrenatural, que se funda sobre a submissão da inteligência e da vontade à Verdade revelada por Deus e ensinada com autoridade pela Igreja.

O livre exame, determinado como princípio, torna não somente inacessível a fé sobrenatural que é o caminho da salvação (“Aquele que não crer, será condenado”, Mc 16,16), mas também torna impossível a unidade na Verdade. Lutero, estabelecendo este princípio tornou impossível para os protestantes a salvação eterna, e a unidade na Verdade. E de fato a multiplicação das seitas protestantes não cessa de aumentar desde o século XVI.

Frente a um espetáculo tão desolador, quem não compreenderá os esforços empregados maternalmente pela verdadeira Igreja de Cristo para buscar a ovelha perdida? Quem não elogiará suas numerosas tentativas apostólicas para liberar tantas almas prisioneiras deste princípio mentiroso que as proíbe o acesso à salvação eterna? Esta preocupação da volta à unidade da verdadeira fé e da verdadeira Igreja que perdura pelos séculos! Ela não é de modo algum uma novidade; consideremos a oração da Sexta-feira Santa:

Oremos pelos hereges e cismáticos, para que Deus Nosso Senhor os arranque aos seus erros e se digne conduzi-los à Santa Mãe e Igreja Católica e Apostólica.

Deus omnipotente e eterno, que a todos salvais e não quereis que ninguém pereça, lançai os vossos olhares para as almas que andam enganadas pela astucia do demônio, a fim de que, repudiando a perversidade da heresia, os corações extraviados se arrependam e regressem à unidade da vossa verdade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esta maneira de falar tradicional não deixa lugar algum à esta confusão tão amplamente difundida hoje em dia em nome de um falso ecumenismo. Os alertas da Congregação do Santo Oficio em 1949, seguindo a vários documentos pontifícios, dos quais, certamente, o mais importante é a encíclica de Pio XI Mortalium animos (1928), estes acertados alertas parecem palavras mortas. No entanto, os perigos deste irenismo ecumênico, denunciado por Pio XII em Humani generis (1950) são imensos e gravíssimos, pois ele desanima as conversões ao catolicismo. Qual protestante, vendo serem louvadas as “riquezas” e as “veneráveis tradições” da Reforma de Lutero, sentiria a necessidade de converter-se? Aliás, a mesma palavra “conversão” atualmente foi banida do vocabulário católico oficial, a partir do momento que se trata de outras confissões cristãs. 

Além disso, esta nova atitude de louvor ao protestantismo e de arrependimento do catolicismo, causa – é uma constatação – a perda da fé em inúmeros católicos. Cada pesquisa sobre a fé dos católicos revela a destruição que produz este nivelamento assustador com o protestantismo. Quantos católicos estão imbuídos no século XXIº pelo que a Igreja condenou até o Concilio com o nome de indiferentismo? Erro funesto, que afirma que todos se salvam, qualquer que seja sua religião. Erro que se opõe diretamente ao ensinamento do próprio Nosso Senhor e de toda a Igreja empós Dele. No entanto, ao denunciar este erro contra a fé católica bimilenar, passamos imediatamente a ser fanáticos ou extremistas perigosos.

É também em nome deste novo ecumenismo que foi inventada esta nova liturgia. Esta mantém uma relação tal com a Ceia protestante que vários teólogos protestantes puderam afirmar a possibilidade para seus correligionários de usar o novo missal católico, assim disse Max Thurian em Taizé. Entretanto, os filhos da Igreja católica se encontravam privados dos mais lindos tesouros do louvor divino e da graça. Graças a Deus, Bento XVI declarou corajosamente que a liturgia multissecular nunca foi revogada, mas – durante mais de 40 anos, no mundo inteiro – a reforma litúrgica pós-conciliar afastou milhões de fiéis das igrejas, pois eles não encontravam mais o que esperavam da Igreja católica.

Como surpreender-se de que este ecumenismo que supostamente promoveria a unidade dos cristãos não tenha muito progresso?

Mgr Marcel Lefebvre, desde o Concilio, denunciou este novo modo de lidar com os protestantes, que se escondia atrás do nome de ecumenismo. De fato, este termo tão elástico expressa uma maneira de ver e de fazer, que se introduziu na Igreja durante o Concilio Vaticano II. Trata-se de uma benevolência demonstrada para com todos os homens, de uma determinação de não condenar mais o erro, de uma busca preferencial em todos os âmbitos de “o que nos une” em lugar de o que nos separa... E o que tinha que ser somente o primeiro passo de um avanço à unidade, no marco de uma captatio benevolentiae, se transformou rapidamente em uma busca desejada em si, sendo seu próprio fim; uma busca incessante de uma verdade indefinida. Ela se afastou então de seu fim objetivo: a volta à unidade da Igreja de aqueles que a perderam. Deste modo o sentido da palavra ecumenismo mudou, o conceito de unidade foi modificado, e os meios para alcançá-la foram falsificados.

A claridade tradicional de uma Igreja que está consciente de ser a única verdadeira e que o proclama alto e em bom som foi substituída por uma doutrina nova e incerta – uma mistura de auto depreciação arrependida e de um relativismo pós-moderno (“não possuímos toda a verdade”, por exemplo) –, o que conduz atualmente uma maioria dos católicos a renunciar em afirmar que existe somente um caminho de salvação, e que o recebemos de Jesus Cristo pessoalmente: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jn 14,6).

Repentinamente o sentido do dogma “Fora da Igreja não há salvação” foi de tal maneira transformado em ideias confusas até chegar ao ponto de alterar a afirmação sobre a identidade da Igreja de Cristo e a Igreja Católica. O cardial Walter Kasper, atual presidente do Conselho para promover a unidade dos cristãos, via na nova definição da Igreja (subsistit in) o motivo que permitiu promover tal ecumenismo desde o Concilio. Vindo da parte de uma pessoa de tal importância, é uma alegação que merece ser levada a sério.

Eis aqui, em algumas palavras, por que nós não podemos comemorar com alegria o 500º aniversário da Reforma protestante. Ao contrário, nós deploramos esta cruel separação. Rezamos e obramos seguindo a Nosso Senhor, para que as ovelhas reencontrem o caminho que as levará seguramente à salvação, o caminho da santa Igreja católica e romana.

Nós rezamos também para que este irenismo ilusório seja abandonado rapidamente e para que em seu lugar reviva um verdadeiro movimento de conversão, tal como existia antes do Concilio, em particular nos países de língua inglesa.

Por fim, em este centenário das aparições de Nossa Senhora aos três pastorzinhos de Fátima, nós rezamos igualmente para que sejam escutados os apelos da Santíssima Virgem Maria. Ela prometeu a conversão da Rússia, quando o Sumo Pontífice queira consagrar explicitamente este país ao seu Coração Imaculado. Redobremos nossas orações e sacrifícios, afim de que a promessa da Mãe de Deus se torne, sem tardar, uma realidade.

Que Ela queira com seu filho, cum prole pia, os abençoar em este tempo pascoal, e conduzir-nos à eterna bem-aventurança.

Domingo de Páscoa 2017
+Bernard Fellay